15 fevereiro, 2007

Obrigada, Allen Ginsberg !

As vezes me sinto como a última hippie do mundo. Depois da correria matutina para acordar e arrumar os filhotes, dar o café da manhã, preparar a merenda escolar, escovar seus dentes e vê-los sair, volto para o computador e começo a tentar esboçar alguns parágrafos da tese. Não, hoje não vai dar, acho que vou ao cinema. Como estou sem dinheiro para o táxi, resolvo que vou a pé – afinal de contas, são apenas dois bairros a nos separar. No caminho, resolvo dar uma passadinha na Cobal, conversar com uma tia querida, olhar as bancadas com suas folhas e flores lindas, almoço no último reduto de comida natureba da face da terra (aquele mini restaurante vegetariano que ainda não entrou na onda chic dos vegans crudívoros. Saio saciada e satisfeita, ganho um copinho de chá na saída e vou ao cinema. Na saída encontro uma amiga, assim, sem combinar nada, sentamos e conversamos, encontramos mais algumas pessoas queridas e ficamos de papo – já é hora de buscar os filhotes. Sempre fico emocionada neste momento – é quando nos reunimos novamente e vamos para casa contar as novidades do dia, preparar o jantar, contar histórias para dormir. Foi um dia bonito – simples, tecido de acontecimentos básicos – como todos devem ser. Resolvo coroá-lo assistindo ao dvd de Bob Dylan que ganhamos de Natal – e como um prêmio inesperado, vejo surgir na tela a figura linda de Allen Ginsberg declamando trechos de seus poemas. Me sinto parte de um universo cósmico que vai além de todos estes novos e estranhos valores que parecem fazer parte deste nosso enlouquecido e pós-moderno dia-a-dia, crivado de narrativas estilhaçadas e “ismos” que já nem faço questão de entender. E durmo feliz!

UM SUPERMERCADO NA CALIFÓRNIA


Muito venho pensado em ti nesta noite, WaltWhitman,
enquanto caminho pela calçada sob as árvores, com uma incômoda
dor de cabeça e olhando a lua cheia. Em meu faminto cansaço, e fazendo compras na imaginação,
fui ao supermercado de neon e frutas, sonhando com tuas listagens!
Que pêssegos e que penumbra! Famílias inteiras
nas compras da noite! Corredores cheios de maridos! Mulheres nos
abacates e bebês nos tomates! — e você, Garcia Lorca,
que estava fazendo diante dos melões?

Te vi, Walt Whitman, sem filhos, velho comilão solitário,
apalpando as carnes do refrigerador e lançando olhares
aos jovens vendedores.

Te ouvi perguntar a eles todos: quem matou as costeletas
de porco? qual o preço das bananas? quem é meu Anjo, tu?
Vagueei por entre as prateleiras brilhantes de latas,
te seguindo e sendo seguido pelo detetive da casa,
em minha imaginação.

Percorremos os grandes corredores, juntos em nossa solitária fantasia,
provando alcachofras, pegando todas as delícias congeladas, sem passar pela caixa.
Para onde estamos indo, Walt Whitman?
Dentro de uma hora as portas se fecham. Qual o caminho que tua barba hoje aponta?

(Toco em teu livro e sonho com nossa odisséia no super- mercado — e me sinto absurdo). Iremos caminhar a noite toda por essas ruas solitárias?
As árvores acrescentam sombras as sombras, luzes apagadas nas casas,
ambos estaremos sozinhos.
Andando e sonhando com a América perdida de amor, passaremos por automóveis azuis no estacionamento a caminho do nosso solitário refúgio?

Ah, querido pai, de barbas cinzas, velho e solitário professor de coragem,
que América te conheceu quando Caronte desistiu de empurrar seu barco e desceu-te na margem enfumaçada e ficou vendo o barco desparecer nas negras águas do Letes?

Allen Ginsberg (tradução de Flávio Moreira da Costa)

2 comentários:

Marília disse...

É reconfortante saber que o mundo ainda tem pessoas de alma pura!!!
Beijo

fezoca disse...

Lara, me junto a trupe das hippies! Ja conhecia esse poema do Ginsberg em ingles. Muito legal! :-) beijao,