Mostrando postagens com marcador resenha. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador resenha. Mostrar todas as postagens

20 março, 2013

A incrível fuga da cebola





“Incrível, é melhor fazer uma canção, está provado que só é possível filosofar em alemão ...”


Será mesmo, Caê? Eu diria que não!

Acabo de ler o mais recente livro da artista italiana SaraFanelli publicado no Brasil: A incrível fuga da cebola. E posso afirmar que, em meio às muitas camadas de uma única cebola, há lugar para muita filosofia.


“É possível esquecer de lembrar?”
“É possível lembrar de esquecer?”
“Se você está no seu quarto, dentro de casa, está em dois lugares ao mesmo tempo?”
“Cerejas têm o mesmo sabor pra todo mundo?”

O belíssimo projeto gráfico do livro -  todo ele interativo, com perguntas incessantes, espaços vazios para que os leitores possam completar com as suas próprias experiências, formas para destacar, e uma profusão de tipos e cores - produz uma reflexão pungente sobre as questões mais básicas do nosso próprio cotidiano: Aquelas que de tão entranhadas foram naturalizadas ...


É isto, caro leitor, eu termino esta breve resenha afirmando:
Lugar de filosofia é na cozinha!!!!!




A incrível fuga da cebola
Sara Fanelli
Editora Ática, 2012

21 setembro, 2010

Dia da árvore


Leitura obrigatória - A Árvore Generosa, de Shel Siverstein

A árvore generosa é uma fábula em preto-e-branco sobre a amizade, a consciência ecológica e a passagem para a vida adulta. Os estreitos laços que aproximam o menino e a árvore transformam-se, pouco a pouco, em distância e silêncio. Ela sempre acolhe e oferta; ele tudo pede e retira. A árvore propõe uma relação de troca sincera e desinteressada - essa que o menino parece desaprender quando vira homem. No Brasil, a delicada narrativa criada por Silverstein foi traduzida pelo renomado escritor mineiro Fernando Sabino. Pautando-se pelo respeito aos leitores, a nova edição da Cosac Naify restabeleceu o formato original (e generoso) do livro. Para além das questões ecológicas, ele sugere um horizonte de cidadania e responsabilidade social em escala planetária.

Obs: texto da própria editora.

18 setembro, 2010

Memórias de açúcar


"Numa tarde, diante do prato raspado da sobremesa, perguntei à minha imagem polida feito espelho de onde é que vinham os doces, e se suas histórias tinham começo, meio e fim. Pega de surpresa, minha cara lambuzada do outro lado nem piscou. Eu tinha acabado de devorar os personagens principais."


Assim começa a viagem de Lucrecia Zappi pelo mundo dos doces. Em edição hiper cuidadosa, típica da Cosacnaify, Mil-folhas, história ilustrada do doce, cativa o leitor não apenas pela narrativa, mas pelas belíssimas ilustrações que recheiam o volume. E o livro ainda nos oferece dois presentes - ao final, em uma simpática engenharia de papel, destacamos algumas folhas e as remontamos (seguindo as instruções), formando um pequeno livro de receitas, para anotarmos as nossas preferidas. E o outro presente é o lindo texto da quarta capa, assinado pela Mari Hirata. Quem acompanha o blog sabe que eu sou absolutamente encantada pelo seu trabalho e que não me canso de ficar admirada com a sensibilidade evocada por suas palavras - com uma economia narrativa absolutamente fantástica, Hirata é capaz de transmitir sua paixão pela culinária e, mais do que isto, é capaz de dar sentido à nossa labuta diária - seja na cozinha seja em qualquer lugar.



20 agosto, 2010

Leitura para o fim de semana


Leitura deliciosa esta que Bob Spitz nos propicia. Uma espécie de relato de viagem misturado com autobiografia e crônica gastronômica, a narrativa de Aprendiz de Cozinheiro intercala reflexões bastante diversas sobre o entendimento da culinária – ora valorizando a expertize dos franceses e a sua relação quase estética com o sabor, ora a simplicidade da comida que é carregada de referências familiares, típica da culinária italiana.

Mas o legal é que Bob consegue um equilíbrio fantástico entre os dois paladares e nos apresenta uma galeria de personagens cuja existência gira em torno da comida. E, de brinde, como uma cereja em cima do bolo, ganhamos deliciosas 25 receitas ... Eu já fiz a minha!

Ameixas ao Armagnac

½ kg de ameixas sem caroço
Água para cobrir
½ xícara de açúcar
Armagnac ou brandy

Ferva numa panela água suficiente para cobrir as ameixas. Adicione-as e imediatamente apague o fogo. Deixe que descansem por 10 minutos naquela água, o suficiente para que inchem (se reidratem). Escorra, reservando o líquido, e guarde as ameixas num saco ziploc para esfriarem.
Faça uma calda simples e leve, fervendo o açúcar com a água que ficou reservada. Coloque as ameixas numa jarra e acrescente a calda até ocupar metade do espaço acima das frutas. Complete com Armagnac ou Brandy. As ameixas podem ficar guardadas assim por meses, ou até anos. Use quando necessário.


Para saber mais, visitem o site da editora ZAHAR.

23 março, 2010

Callaloo

Ganhei Terras Baixas (de Joseph O’Neill, edição da Alfaguara) de presente de aniversário. Não conhecia o autor e nunca tinha ouvido falar nele. A sinopse, confesso, não era muito animadora, algo relacionado ao jogo de críquete que, outra confissão, pouco ou quase nada sabia do assunto e, tampouco, me interessava saber. Mas, presente é presente e livro é livro. Ou seja, eu o leria de qualquer maneira. E eis que fui duplamente presenteada – eu simplesmente amei o livro. Há muito tempo que não me envolvia assim com uma narrativa, que não saboreava a palavra escrita desta forma, tão intensamente. É claro que depois disto corri atrás de informações sobre o autor e resenhas sobre o livro que, conforme imaginei, vem colecionando elogios e prêmios por aí.
A outra coincidência interessante foi conectar este a mais dois livros dos mais intrigantes que li nos últimos tempo – todos ingleses (embora O’Neill esteja mais para um cidadão do mundo) e todos permeados pelos atentados terroristas característicos do mundo pós 11 de setembro. São dois livros que indico fortemente – o Extremamente Alto & Incrivelmente Perto, do Jonathan Safran Foer e Incendiário, de Chris Cleave.

Trecho do livro:

"Acontecia de Roy, como Chuck, ser de Trinidad. “Callaloo”, observou Vinay, distraidamente, e Roy e Chuck começaram a dar risadinhas, deliciados. “Você conhece callaloo?”, disse Roy. Virando para mim, ele comentou, “Callaloo é a folha do taro. Você não acha taro fácil por aqui”.
“Que tal o mercado na Flatbush com a Church?”, disse Chuck. “Lá você encontra.”
“Bom, pode ser”, concedeu Roy. “Mas se você não consegue a verdura de verdade, dá pra fazer com espinafre. Você põe no leite de coco: grelha bem fino a polpa do coco e espreme até sair o sumo. Depois acrescenta um pimentão vermelho inteiro – só vai ficar picante se você esmagar -, tomilho, cebolinha, alho, cebola. Normalmente agente
usa para temperar o siri-azul; tem gente que põe no escabeche de rabo de porco.
Você põe pra cozinhar e pega um mexedor de coquetel e mexe até a folha sumir num
molho grosso, tipo um molho de tomate. Esse é o jeito que agente fazia antes; hoje todo mundo joga no liquidificador. Usa no peixe ensopado – no para-terra, no carite: mmm-hmm. Também fica bom com inhame, batata-doce. Pastelzinho no vapor.”
Nota: Callaloo é uma receita típica de Trinidad & Tobago, feita como descrito acima. Mas o que achei realmente interessante foi aprender que a palavra callaloo possui também, outros significados - ela serve para nomear uma grande tragédia e para descrever o caráter multi-cultural de um país. Ou seja, o callaloo serve como a grande metáfora do romance.

Receita de Callaloo aqui.

30 maio, 2009

Mar Profundo


Ontem, procurando um livro em minha bagunçada estante, me deparei com este exemplar - o romance Mar Profundo, de Romesh Gunesekera. Na ocasião de minha leitura, lembro-me de ter ficado encantada com ele, lembro-me, até, de ter escrito uma resenha um pouco mais elaborada, tentando falar um pouco da importância de ler esta geração de autores surgidos na esteira dos estudos pós-coloniais. Mas depois de uma rápida busca no meu computador, me dei conta de que ela havia, definitivamente, desaparecido. Mas não tem problema, deixo aqui pelo menos um pequeno registro sobre o livro. Na sua orelha lemos:



“ Mar Profundo (...) é uma exótica história de crescimento e perda que se passa no exuberante paraíso do Sri Lanka (então Ceilão), pequena ilha ao sul da Índia. O narrador é Triton, que, aos onze anos, passa a trabalhar na casa do senhor Salgado (...) aprende a cuidar da casa e a lustrar a prataria. Mas seu destino é mais sutil, e ele logo começa a assar pão, bolo de amor com castanhas-de-caju frescas; a preparar panquecas de arroz com curry de peixe, bolinhos os mais variados, camarões em suflê de rum e peixe-papagaio cozido no vapor com sambol de pimenta, além de um sem número de outras delícias. (...) Conforme Triton conta a sua história, uma extraordinária voz emerge: ingênuo e sábio, temeroso e bravo, um menino tornando-se homem em um mundo à beira do caos, às vésperas das guerras étnicas que assolaram a ilha a partir da década de 1980”.


Aí vai uma nota história sobre o Sri Lanka: Lembram-se dos famosos versos de Camões “As armas e os barões assinalados / Que, da Ocidental praia Lusitana, / Por mares nunca de antes navegados / Passaram ainda além da Traprobana,” ? Pois é, a Traprobana era o Sri Lanka, ilha povoada desde o século X pelos árabes. Em 1517, os Portugueses lá fundaram a cidade de Colombo, e a ocuparam até o final do século XVIII quando, os franceses tomaram e a batizaram de Ceylon. Alguns anos depois, em 1802, ela foi oficialmente cedida à Grã-Bretanha, e passou a ser uma colônia real. Só em 1948 é que o Sri Lanka conseguiu sua independência.

12 abril, 2008

Porca Memória


Há muito que acompanho o blog Glotonia. Adoro os textos bem humorados dos amigos bascos Hasier Etxeberria (escritor que ama a cozinha) e Davis de Jorge (cozinheiro que ama os livros) - adoro seus textos, seus humores, suas indicações, enfim, me divirto com eles. Eis que hoje, passeando numa livraria em busca de um novo livro de receitas que me inspirasse, me deparei com o Porca Memória - Recordações gastronômicas de um par de suínos, traduzido e editado pela Senac. Comprei na hora. Estou lendo sem parar desde que cheguei em casa - só parei para vir escrever este post - e estou me deliciando e, pasmem, me emocionando com o volume. Acabei de ler um capítulo dedicado à culinária portuguesa lindíssimo. Não resisto e transcrevo um trechinho:


"Na minha primeira incursão pela geografia portuguesa vivi praticamente de uma caridade solidária da qual nunca me esquecerei: em qualquer lugar em que falasse o mágico "tenho fome", uma festa era imediatamente organizada.Aquela comida simples me encantava, fosse carne ou peixe, servida com legumes quase sempre inteiros, apenas fervidos e regados com azeite saboroso: couves, cenouras, tomates, berinjelas, e batatas e mais batatas. (...) Depois de tudo que vi e vivi em Portugal, depois de tudo o que prendi com as pessoas e com suas mesas, quando algum babaca volta do feriado prolongado da Semana Santa ou do fim de ano, sem se dar conta de que cada lugar, vila ou bairro de Portugal sabe fazer uma sopa diferente e gostosa, quase sempre batizada com o nome de Nossa Senhora ou do santo de devoção local, e diz que em Portugal se come muito mal, me dá vontade de soltar o tourinho, esse que, como se diz, todo basco leva escondido nas entranhas. E dar-lhes, naquele lugar merecido, um bom par de chifradas".


29 novembro, 2007

Como transformar quilos de manteiga em algo leve...



A receita para este "milagre" você encontra nas páginas do delicioso livro Julie & Julia, de Julie Powell. Ganhador do primeiro Blooker Prize – prêmio internacional para livros escritos a partir de blogs, neste livro encontramos a narrativa das venturas e desventuras de uma secretária na cozinha que, ao longo de um ano, se propôs a hercúlea tarefa de realizar todas as 534 receitas do livro de Julia Child - Mastering The Art Of French Cooking e relatá-las em seu blog. Aos poucos este vai se tranformando num projeto que, para além de seu objetivo primeiro, confere a vida de Julie novos rumos. Como pode um blog transformar a vida de uma pessoa? A resposta você encontra nas páginas do livro, em meio a quilos e mais quilos de manteiga!


Julia Child, autora de Mastering The Art Of French Cooking – um clássico da culinária norte-americana!

18 outubro, 2007

Em louvor da sombra, por Biagio D'Angelo

Quem tem amigo, tem tudo nesta vida. Neste período complicado, que não consigo postar nem uma única linha, eis que me chega, via e-mail, esta linda colaboração. São trechos destacados do ensaio Em louvor da sombra, de Junichiro Tanizaki, editado este ano pela Cia. das Letras. É só saborear:





"Diz-se que a culinária japonesa é para ser contemplada e não consumida, mas aqui, eu diria mais: ela é digna de meditação. É melodia inaudível, concerto executado pela vela a bruxulear no escuro e pelos vasilhames de laca. Soseki Natsume[1] louvou tempos atrás em seu Kusamakura (Travesseiro de ervas) a coloração do youkan, o tradicional doce de feijão azuki, e, realmente, nada mais digno de contemplação que essa cor. A tonalidade profunda e complexa, a massa semitransparente e nublada de misteriosa profundidade que atrai e retém a luz em forma de tênue, sonhadora luminosidade – são coisas que não se vêem em doces ocidentais. Comparado ao youkan um creme ocidental, por exemplo, é primário e superficial. Pois acomode uma fatia desse doce youkan num vasilhame laqueado e mergulhe-o num ambiente de claridade apenas suficiente para divisar-lhe a cor: agora, a guloseima tornou-se digna de meditação. Ter na boca esse pedaço acetinado e frio que a sombra acresceu de estranha profundidade – e cujo sabor real talvez nem seja notável – é ter o próprio negrume transformado em delicioso bocado derretendo na ponta da língua. Creio que a culinária da maioria dos paises foi concebida para se harmonizar com o serviço de mesa e com a tonalidade das paredes. Pois a culinária japonesa, especialmente, perde metade da apetência quando servida em ambiente e pratos claros. Quando considero por exemplo o avermelhado caldo de missô[2] de todas as manhãs, percebo que essa cor foi desenvolvida nos escuros aposentos de antigas casas. Certa vez, fui convidado a participar de uma cerimônia do chá onde me serviram um caldo de missô, mas ao vê-lo no fundo de uma wan[3] preta à vacilante luz de velas notei esse grosso caldo de cor ocre, que tomo com tanta naturalidade no cotidiano, adquirir um colorido profundo, realmente apetitoso. Considere também o shoyu, em especial o do tipo denso que costumeiramente acompanha sashimi, conservas e verduras da região de Kyoto: como esse líquido espesso e brilhante é rico em sombras, como se harmoniza com as trevas! E mesmo as iguarias de cor clara – o caldo de missô claro, o tofu, a massa de peixe kamaboko, o sashimi feito de pescado de carne branca – perdem vida pela ausência de contraste quando apresentados em ambiente claros. E, acima de tudo, o arroz: seu aspecto é belo e apetitoso quando o vemos à meia-luz servido em terrina revestida de laca escura e lustrosa. Que japonês digno desse nome não se comove quando, removida de golpe a tampa da terrina, vê o cálido vapor subir do arroz recém-preparado, cada grão a luzir como pérola em gota? Nesta altura do raciocínio dou-me conta de que também a nossa culinária tem sua tônica na sombra, e que com ela mantém uma relação indissolúvel."

[1] Soseki Natsume (1867-1916) é um romancista japonês cujas obras foram fundadoras da literatura japonesa moderna. Seu livro Eu sou um gato é publicado em português pela Editora Estação Liberdade. (Nota de autoria de Biagio D'Angelo)
[2] Pasta de soja fermentada, muito utilizada na culinária japonesa. (Nota de autoria de Biagio D'Angelo)
[3] Tigela laqueada. (Nota de autoria de Biagio D'Angelo)


***


"Dias atrás, o jornalista que me entrevistou pediu-me que comentasse a respeito de pratos diferentes e saborosos. Eu então lhe falei do sushi feito de folhas de caqui – especialidade dos habitantes das remotas regiões montanhosas de Yoshino[1] – e também da maneira de prepará-lo. Aproveito a oportunidade para revelar a receita aos meus leitores: para cada dez de medidas de arroz, uma de saquê deve ser acrescida no momento em que o arroz entrar em ebulição. Depois de pronto, deixe o arroz esfriar completamente e, em seguida, espalhe sal na palma das duas mãos, aperte o arroz entre elas e forme bolinhos compactos. Nesse momento, é imprescindível que a mão esteja totalmente seca. O segredo é fazer os bolinhos só com a ajuda do sal, sem molhar as mãos. Depois, estenda sobre os bolinhos fatias finas de salmão levemente salgadas, envolva cada conjunto com uma folha de caqui com a face superior em contato com o sushi. Na medida do possível, é preciso retirar a umidade tanto da folha do caqui como das fatias do salmão com um pano seco. Em seguida, os bolinhos deverão ser acondicionados numa tina rasa de madeira – do tipo usado no preparo do sushi – ou numa vasilha de arroz, apertados uns contra os outros de maneira a não deixar espaço entre eles, e sobre o conjunto deverá ser posta uma tampa de madeira. Uma pedra de bom peso, do tipo usado para fazer picles, deverá ser assentada sobre a tampa para pressionar o sushi. Preparado à noite, estará pronto para ser degustado na manhã seguinte. No decorrer do dia, o sabor se manterá ideal mas continuará comível durante mais dois ou três dias. Molhe folhas de pimenta-d’água em vinagre e borrife sobre o sushi no momento de servi-lo. A receita me foi passada por um amigo que esteve em Yoshino, mas pode ser preparada em qualquer lugar. (...) Experimentei fazê-lo em casa e concordei com meu amigo: esse sushi é excepcionalmente saboroso. O sal e a gordura do salmão impregnam-se de maneira ideal no arroz e o peixe fica irresistivelmente macio e fresco. Achei esse sushi muito diferente dos de salmão que costumo comer em Tóquio, e tão mais gostoso que vivi dele o verão inteiro. Admirei o jeito diferente de consumir o salmão e a criatividade dos habitantes das regiões remotas e montanhosas carentes de tudo. E ao pesquisar sobre especialidades típicas de diversas regiões interioranas, descobri que seus habitantes têm paladar muito mais apurado que os moradores dos grandes centros urbanos. Num certo sentido, isso significa que eles vêm se banqueteando com iguarias cujo sabor não conseguimos sequer imaginar."

[1] Cidade da Prefeitura de Nara, famosa pelos templos e as cerejeras em flor.

15 julho, 2007

"Em última análise, vale a pena recordar que o bom pão depende sobretudo da
qualidade dos homens e mulheres que o produzem"
Steven L. Kaplan






Ótima resenha do livro do historiador Steven L. Kaplan, Good Bread Is Back - A Contemporary History of French Bread, the Way It Is Made and the People Who Make It, hoje no caderno Mais! da Folha de São Paulo.

16 abril, 2007

No tempo das vacas magras


A historiadora Madeleine Ferrières, pesquisadora da Casa Mediterrânea de Ciências Humanas de Aix-en-Provence, já havia traçado um panorama histórico de nossos medos alimentares. Ela volta ao tema com "Nourritures Canailles" (numa tradução livre, Comidas do Populacho, ed. Seuil, 474 págs., 24 euros, R$ 65), uma obra cheia de sal sobre a cozinha popular na qual estão as raízes da alimentação francesa. É uma história em que o nabo, as tripas e as batatas são os heróis.

Vale a pena dar uma lida na entrevista que a historiadora concedeu ao suplemento Mais! da Folha de São Paulo.

31 março, 2007

Cozinha da Amizade

Percorrendo com os olhos atentos e esperançosos os inúmeros volumes dedicados aos estudos de crítica literária, me deparei com um livro que me comoveu – Poetas românticos, críticos e outros loucos. Não tanto pelo tema do livro – uma vez que foge completamente do meu objeto de estudo, mas pela inclusão de um texto sobre Elizabeth David, intitulado O Livro de Receitas, uma Pastoral Romântica. Neste texto, originalmente escrito como resenha do livro de Elizabeth An Omelette and a Glass of Wine, Charles Rosen nos dá uma aula sobre o estilo dos livros de receitas, que segundo acredita, são verdadeiras obras pastorais:
“Os bons livros de receitas podem nos apresentar a cozinhas exóticas,
transportar-nos para o romântico Oriente (ou a Escandinávia ou a América Latina)
sem que precisemos pôr um pé fora de casa, mas os livros de receita que tocam o
coração com mais força são aqueles que nos fazem retroceder no tempo: à cozinha
da mamãe e às lembranças infantis ou à uma época antiga e mais
esplendorosa.(...) É um passado que podemos imaginar e recriar com os odores da
cozinha e recuperar simbolicamente apenas pelo ato de comer”.

Ao longo da resenha, o autor recupera algumas das influências de Elizabeth ao mesmo tempo que vai nos apresentando algumas referências-chave para se pensar a culinária – entendida aqui como a longa história que envolve, para além das técnicas de transformação do alimento, as relações sociais que perpassam o ato de comer. É quando surge a figura de Edouard de Pomiane, pesquisador do Institut Pasteur em Paris que, segundo o autor, praticava uma cozinha da amizade. E é esta imagem-síntese que me inspirou a escrever este post e dedicá-lo a todos os leitores deste blog, na certeza de que a prática diária da escrita bloguística tem como contrapartida a construção de uma rede emotiva tão cara a todos nós, homens que somos de nosso tempo histórico, tempo este que parece desfiar intensamente os tais laços de solidariedade tão fundamentais para a conformação da sociedade. Me sinto realmente amiga de todos que freqüentam o blog e de todos os autores dos blogs que leio – é como se praticássemos uma cozinha da amizade, tal qual a preconizada por Pomiane.

São suas as palavras:

Existem três tipos de jantares: os jantares de negócios, os oferecidos em
retribuição a convites e os jantares de amigos. (...) Suas receitas estão cheias
do desejo de agradar os amigos, não de impressioná-los ou deslumbrá-los.


Faço dele as minhas palavras - a nossa cozinha da amizade é assim!

17 março, 2007

Presentes

Finalmente chegaram meus livros da Amazon. Num ato de loucura, os comprei por ocasião do meu aniversário. Apesar do impulso, acho que acertei na escolha. São eles: What Mrs. Fisher Knows about old southern cooking (the first african-american cookbook, from 1881); Building Houses out of Chicken legs – black womwn, food, & power e Vegan Cupcakes.
Estou encantada com a leitura do livro de Psyche A.Williams-Forson ( Building Houses...). Segundo a autora, as mulheres negras americanas desenvolveram uma espécie de identidade coletiva que passa pela relação que elas mantêm com algumas comidas, em especial com as galinhas. É através da preparação e distribuição deste que é para elas uma espécie de prato abençoado (“gospel bird”), que as mulheres negras criaram e partilharam uma espécie de consciência da negritude. Mas é no desenvolvimento de seus argumentos que a autora vai nos apresentar uma material riquíssimo para se pensar o papel central da alimentação na cultura de uma sociedade. É em torno do tripé literatura afro-americana, narrativas orais e livros de receitas, que a autora constrói sua argumentação. E neste percurso nos vai apresentando verdadeiros ensinamentos de como podemos trabalhar esta questão. É dela esta frase lapidar: “Cookbooks represent cultural sites where food and memory intersect”. Bom, assim que avançar na leitura, escrevo um pouco mais sobre ele.
Já o livro de cupcakes é todo delicioso – e para este final de semana escolhi esta receita:


Pistachio Rosewater Cupcakes

½ xícara de iogurte de soja, sabor baunilha
2/3 de xícara de leite de soja ou de arroz
1/3 xícara de óleo de canola
¾ de xícara mais 2 colheres de sopa de açúcar granulado
De 1 a 2 colheres de sopa de água de rosas
1 xícara mais 2 colheres de sopa de farinha de trigo
2 colheres de sopa de maisena
½ colher de chá de fermento em pó
½ colher de chá de bicarbonato de sódio
¼ de colher de chá de sal
1 pitada generosa de cardamomo
1/3 de xícara de pistaches picados (se quiserem, levemente torrados)

Rosewater Glaze

Pistaches picados, para guarnição (mais ou menos ½ xícara)
1 colher de sopa açúcar cristal cor de rosa (opcional)


Modo de Fazer

Pré-aqueça o forno. Unte 12 forminhas de muffins.
Num bowl, misture o iogurte, o leite, o óleo, o açúcar e a água de rosas. Em outro recipiente, misture a farinha, a maisena, os fermento, o bicarbonato, o cardamomo e o sal. Junte as duas misturas. Deposite nas forminhas e leve para assar por mais ou menos 20 minutos. Retire-os do forno e deixe esfriar completamente antes de confeitá-los.

Para glacê:

1 ¼ de açúcar de confeiteiro
1 colher de sopa de margarina
2 a 3 colheres de chá de leite de soja
½ colher de chá de água de rosas

Com o auxílio de um garfo, misture a metade do açúcar com a margarina até formar uma espécie de farofinha. Adicione o leite e a água, e bata juntando o restante do açúcar. Misture tudo até atingir a consistência desejada. Decore os muffins com este creme, salpique com os pistaches quebradinhos e o açúcar cor-de-rosa.
Lembram muffins de contos-de-fada!


Atenção: para quem não curte soja, pode-se substituí-la por leite comum.

21 novembro, 2006

Amanhã, numa boa


Acaba de sair uma resenha minha do livro Amanhã, numa boa na edição de novembro da Revista virtual Dobras de leitura. Quem quiser pode acessá-la por aqui.

12 setembro, 2006

Conselhos a um jovem Chef


Estou lendo um lindo livro do grande chef Daniel Boulud, intitulado Conselhos a um jovem Chef, editado pela Anhembi Morumbi Editora.
O livro, escrito em forma de cartas, procura dar conta da árdua e encantadora carreira de chef. Nos fala dos principais atributos da profissão, das dificuldades e das maravilhas desta arte culinária. Tudo de forma bastante simples e tocante. Entremeadas de, não diria receitas mas sim indícios de receitas, a leitura das cartas nos abre o apetite e nos convida a pensar naquilo que comemos. São 14 cartas que procuram dar conta deste amplo universo chamado gastronomia e que se dividem da seguinte forma, Os mestres, O seu sentido do paladar, Ingredientes, e por aí vai. Alguns de seus pensamentos são verdadeiras pérolas. São frases que nos fazem ficar pensando dias e dias na mágica da culinária. Aí vai uma delas:

“Quando se é chef, o desejo é honrar seu passado transformando-o em memórias gastronômicas que possam ser servidas num grande restaurante”.